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12.5.23

Autor do Mês - Manuel Alegre

Em dia de aniversário deste que escolhemos como Autor do Mês na nossa Biblioteca, partilhamos um texto do autor que também destacamos no passado mês como "Poeta de abril". Boas leituras e...

          https://www.facebook.com/photo/?fbid=10158071106339336&set=a.82110609335

Nasci em Maio, o mês das rosas, diz-se. Talvez por isso eu fiz da rosa a minha flor, um símbolo, uma espécie de bandeira para mim mesmo.

E todos os anos, quando chegava o mês de Maio, ou mais exactamente, no dia 12 de Maio, às dez e um quarto da manhã (que foi a hora em que eu nasci), a minha mãe abria a porta do meu quarto, acordava-me com um beijo e colocava numa jarra um ramo de rosas vermelhas, sem palavras. Só as suas mãos, compondo as rosas, oficiavam nesse estranho silêncio cheio de ritos e ternura.

Nesse tempo o Sol nascia exactamente no meu quarto. Eu abria a janela. Em frente era o largo, a velha árvore do largo dos ciganos. Quando chegava o mês de Maio, eu abria a janela e ficava bêbado desse cheiro a fogueiras, carroças e ciganos. E respirava o ar de todas as viagens, da minha janela, capital do mundo, debruçado sobre o largo onde começavam todos os caminhos.

E tudo estava certo, nesse tempo, ou, pelo menos, nada tinha o sabor do irremediável. Nem mesmo a morte da minha tia. Por muito tempo ela ficou nos retratos e no jardim, bordando à sombra das magnólias, andando pela casa nos pequenos ruídos do dia-a-dia, até que, pouco a pouco, se foi confundindo com as muitas ausências que vinham sentar-se na cadeira, onde, dantes, minha tia se sentava.

E eu dormia poisado sobre a eternidade, como se tudo estivesse certo para sempre, eu dormia com muitos olhos, muitos gestos vigilantes sobre o meu sono. Por vezes tinha pesadelos, acordava, inquieto, a meio da noite, qualquer coisa parecia querer despedaçar-se e então exclamava:

- Mãe!

E logo essa voz, tão calma, entrava dentro de mim, mandava embora os fantasmas, e era de novo o meu quarto, a doce quentura da minha casa no cimo da ternura.

Não havia polícia nesse tempo. Ninguém roubaria a tranquilidade do meu sono, ninguém viria a meio da noite para me levar, porque bastava eu chamar:

- Mãe!

E logo uma voz, tão calma, mandava embora os fantasmas. E era a paz, nesse tempo, em que todos os anos, quando chegava o mês de Maio, ou mais exactamente, o dia 12 de Maio, às dez e um quarto da manhã, a minha mãe abria a porta do meu quarto e colocava, religiosamente, um ramo de rosas vermelhas sobre a minha vida, nesse tempo, em que dormir, acordar, nascer, crescer, viver, morrer, eram um rito no rito das estações.

Em Maio de 1963 eu estava na cadeia. Por vezes, a meio da noite, um grito abalava as traves da minha cabeça, direi mesmo da minha vida, e eu acordava suado, dolorido, como se um rato (talvez o medo?) me roesse o estômago. E era inútil chamar. Onde ficara essa voz que dantes vinha repor o sono no seu lugar, repondo a paz dentro de mim? E as manhãs penduradas no mês de Maio, onde acordar era uma festa? Onde ficara a ternura? Onde ficara a minha vida?

Em Maio de 1963 eu estava na cadeia. Dormia – como direi? – acordado sobre cada minuto. Tinha aprendido o irremediável. Alguma coisa, dentro de mim, se despedaçara para sempre (para sempre? Que quer dizer para sempre?). Era inútil chamar. Tinha aprendido, fisicamente, a solidão. Embora na cela do lado, alguém, batendo com os dedos na parede, me dissesse, como se fosse a voz longínqua do meu povo:

- Coragem!

Eu estava, pela primeira vez, fisicamente só, dentro do meu sono povoado por esse grito que estalava por vezes as traves da minha cabeça (onde essa voz que mandava embora os fantasmas?).

E era terrível essa manhã sem manhã, essa realidade branca e gelada, toda feita de paredes, grades, perguntas, gritos. Mesmo que na cela do lado, alguém, batendo com os dedos na parede, me dissesse:

- Bom dia!

era terrível acordar nessa estreita paisagem com sete passos de comprimento por sete de largura, tão hostil, tão dolorosa como as regiões dos pesadelos. Porque acordar era ter a certeza de que a realidade não desmentiria o pesadelo.

Mesmo que os meus dedos batendo na parede transmitissem notícias dum homem que podia responder:

- Bom dia!

de cabeça erguida era terrível acordar no mês de Maio, com a certeza de que no dia 12 a minha mãe não entraria pelo meu quarto, deixando-me na fronte um beijo, e rosas vermelhas sobre os meus vinte e sete anos.

Talvez seja preciso renunciar à felicidade para conquistar a felicidade. Eu estava na cadeia em Maio de 1963. Tinha aprendido a solidão. Tinha aprendido que se pode gritar com todas as nossas forças quando se acorda a meio da noite com um grito na cabeça e um rato (talvez o medo?), roendo-nos o estômago, que ninguém, ninguém virá repor a paz dentro de nós. E, então, é a altura de saber se as traves mestras dum homem resistirão. Pois só a tua voz, amigo, responderá ao teu apelo torturado na noite. E, nessa hora (a mais solitária das horas), se conseguires cerrar os dentes, dar um murro na parede, acender um cigarro, se conseguires vencer esse encontro com a solidão no mais fundo de ti próprio, com que alegria, com que estranha alegria, na manhã seguinte, tu responderás:

- Bom dia!,

mesmo que seja terrível acordar no mês de Maio, nessa estreita paisagem, gelada e branca, com sete passos de comprimento por sete de largura.

É certo que se podem escolher outros caminhos. Mas poderia eu ter escolhido outro caminho? Acaso poderia dormir descansado, onde quer que estivesse, sabendo que algures, na noite, há homens que batem, há homens que gritam?

Os fantasmas tinham entrado no meu sono, invadiram a minha casa no cimo da ternura; os fantasmas eram donos do País. E se eles viessem de repente, a meio da noite, e eu chamasse:

- Mãe!

A voz (tão calma) de minha mãe já nada poderia contra eles. Era um trabalho para mim, uma tarefa para todos aqueles que não podem suportar a sujeição. Eu nunca pude suportar a sujeição. Acaso poderia ter escolhido outro caminho?

Por isso, em Maio de 1963, eu estava na cadeia, isto é, de certo modo, eu estava no meu posto. No dia 12 não acordei com o beijo de minha mãe.

Porém, nessa manhã (não posso dizer ao certo porque não tinha relógio, mas talvez – quem sabe? -, às dez e um quarto, que foi a hora em que eu nasci), o carcereiro abriu a porta e entregou-me, já aberta, uma carta de minha mãe. E ao desdobrar as folhas que vinham dentro do sobrescrito violado, a pétala vermelha duma rosa vermelha, caiu, como uma lágrima de sangue, no chão da minha cela.

Manuel AlegrePraça da Canção, 1965

(http://pracadapoesia.blogspot.com/2009/04/rosas-vermelhas.html)


24.4.23

25 de Abril de 1974

Comemora-se amanhã o 25 de abril. Na BE/CRE e na Learning Street, há vários trabalhos dos alunos expostos para apreciarem. O próprio "Autor do Mês" - Manuel Alegre - apela à data. E, por entre os livros, surgem "palavras de ordem" e cravos de papel.


23.4.23

Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor

 Hoje é dia de celebrar, mundialmente, os livros e os autores, com o cartaz disponibilizado pela DGLAB e com as propostas da nossa Biblioteca!





23.3.23

Semana da Leitura - Programa

 É já na próxima semana! De 27 a 31 de março no AERT3!



Dia Mundial da Poesia II

 Ainda por causa do Dia Mundial da Poesia, a "notícia" elaborada por uma aluna do 10.ºQ e o belíssimo trabalho realizado pela professora Daniela Antunes, que contou com a preciosa colaboração das suas turmas, e que agora figura no espaço da Biblioteca, também templo da poesia. 


 O "coração" contém um poema de José Tolentino de Mendonça, denominado "Isto é o meu corpo". Colocamo-lo ao lado da exposição do "Autor do Mês", dedicada a Ana Luísa Amaral.


21.3.23

Dia Mundial da Poesia I

 Hoje foi dia de levar a Poesia às salas de aula! Entre as 9h e as 16.30h, alunos do 7.º ao 12.º anos partilharam poemas próprios, de autores menos conhecidos e de alguns nomes grandes da nossa literatura (e não só). O apelo foi feito com antecedência e a adesão foi realmente significativa.


 Agradecemos aos alunos envolvidos, do 7.ºA, do 7.ºB, do 8.ºB, do 10.ºQ, do 11.ºJ, do 11.ºM e do 12.ºC, e a todos os professores que colaboraram e possibilitaram a realização desta atividade. Deixamos aqui um dos poemas partilhados, neste caso do nosso "Autor do Mês", poeta que também hoje queremos celebrar:


ENTRE AS DUAS E AS TRÊS

 

Queria falar do que não tem concerto:

as letras desenhadas e compostas

com que confundo o espaço do papel,

a angústia compassada no contar

e a súbita alegria de ser eu

penosamente, às duas da manhã

 

Queria escrever do que não tem lugar:

a branca, doce e sonolenta estrada

onde espaçadas as palavras crescem,

suavizadas pelo lento sono

que devagar percorre as coisas todas

penosamente, às duas da manhã

 

Queria dizer do que não tem conserto:

ou seja, eu; ou seja, o papel branco

sombrio agora por já ser demais,

as letras excedentes e sonoras

desmembrando o silêncio e a noite toda

penosamente, às duas da manhã

 

Só então falarei do que ficou:

compassada alegria desenhada

na angústia de dizer sem me contar,

o papel confundido de impotente

e todavia prontas as palavras.

Quase às três da manhã. Penosamente.

 

                                   Ana Luísa Amaral



16.3.23

Semana da Matemática

 Quase a terminar esta semana, dedicada à Matemática, partilhamos algumas imagens relacionadas com as atividades desenvolvidas em colaboração com a Biblioteca Escolar, nomeadamente a 6.ª palestra das "Palestras na Escola - Matemática, uma língua universal" e a "Matemática para todos - workshop criativo".





13.3.23

Vamos levar a Poesia à sala de aula!

 No próximo dia 21 de março, Dia Mundial da Poesia, a proposta da BE/CRE, em articulação com o Clube de Leitura e Escrita da ESRT, é que levemos a Poesia às salas de aula. 

 Seleciona um poema (que até pode ser da tua autoria), inscreve-te na Biblioteca e treina a sua leitura, para que no dia 21 o possas ir "dizer" a uma turma em sala de aula, durante a manhã ou a tarde. 



8.3.23

Dia Internacional da Mulher

 Uma partilha do Clube de Francês no Dia Internacional da Mulher. Feliz dia a todas as Mulheres, seja qual for língua que falam!



6.3.23

Gabriel García Márquez

 A 6 de março de 1927, nascia em Aracataca (Colômbia) Gabriel García Márquez. Considerado um dos autores mais importantes do século XX, para além de jornalista, editor, ativista e político, foi um dos escritores mais admirados e traduzidos no mundo, com mais de 40 milhões de livros vendidos em 36 idiomas. 

  Em 1967 publicou a sua obra mais conhecida, "Cien Años De Soledad" ("Cem Anos de Solidão"), romance que se tornou num marco considerável no estilo denominado como realismo mágico, e em 1982 foi galardoado com o Prémio Nobel da Literatura. 

  Morreu a 17 de abril de 2014, aos 87 anos, em sua casa na Cidade do México.

 

     foto: https://observador.pt (2022/01/17)

    Procura as obras deste autor na tua Biblioteca, ou consultando, primeiramente, o catálogo.

14.2.23

Dia de S. Valentim

  A nossa biblioteca encheu-se de corações e não só! De palavras, de afetos, de lenços dos namorados e até de colheres de pau belamente decoradas! Sim, que as tradições são para relembrar e os trabalhos dos alunos dignos de partilha.

 Aqui ficam algumas imagens das várias exposições ("Dizeres de Amor" - textos produzidos pelos alunos do Clube de Leitura e Escrita da ESRT; "Leituras com Amor" - decoração da montra com sugestões de livros relacionados com o tema; "Valentine' s Day" - trabalhos em inglês no "English Corner"; "Corações recortados e Lenços dos namorados"; "A nossa feira dos namorados" - tradição de Vila do Conde, em colheres de pau decoradas) e ligações para dois padlets resultantes de DAC com duas turmas do oitavo ano. 





Lenços dos namorados - 8ºA

Lenços dos namorados - 8ºB

2.2.23

La Chandeleur

 Esta é uma partilha do Clube de Francês, da atividade "Canto da Cultura", relacionada com a tradição de comer crepes no dia 2 de fevereiro - "La Chandeleur". Aqui deixamos a informação disponibilizada.

A 2 de Fevereiro, 40 dias depois do Natal, comemora-se La Chandeleur, uma data importante na cultura francesa e normalmente associada à confeção de crepes.

O nome La Chandeleur é derivado do latim (candelaria – candeia) e a sua origem remonta à Antiguidade Romana em que se fazia uma festa em honra do deus Pan, deus dos bosques, dos campos, dos rebanhos e dos pastores. Durante essa festa, à noite, os fiéis andavam nas ruas com tochas. A partir do século XIV, esta festa passa a ser associada a Nossa Senhora das Candeias.

Hoje em dia a tradição é fazerem-se crepes, que pela sua forma redonda e pela sua cor dourada, fazem lembrar o sol e são como que um apelo ao regresso da Primavera, após Inverno.

Há um ritual interessante associado à confeção dos crepes: fazer saltar os crepes, com a mão direita, e ter, na mão esquerda, uma moeda, para trazer prosperidade e abundância durante todo o ano. Há também a superstição de que o primeiro crepe confecionado não deve ser comido, mas antes guardado para dar sorte e para que as colheitas sejam abundantes.

O Clube de Francês propõe-te esta receita para que festejes este dia!


https://www.youtube.com/watch?v=rLUfi2XHGYg

https://www.youtube.com/watch?v=XF6x17O-BHo

https://www.youtube.com/watch?v=pPpqTFMjtn0


30.1.23

Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto

 Assinalou-se na passada sexta-feira, dia 27 de janeiro, o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto. No espaço da BE apresentamos algumas sugestões de leitura relacionadas com o tema. Porque não podemos esquecer. 







17.11.22

DIA MUNDIAL DA FILOSOFIA

 No âmbito da comemoração do Dia Mundial da Filosofia, que se celebra na terceira quinta-feira do mês de novembro, a BE/CRE colaborou com a seleção de obras e com a realização de uma exposição de  marcadores de livros alusivos a filósofos de diferentes épocas. Estes resultaram de uma atividade de DAC entre a disciplina de Filosofia e a disciplina de Português, nas turmas A, C e H do 10.º ano
  Visitem a exposição, conheçam as obras e apreciem os marcadores com algumas "Cantigas de amigo" sobre a filosofia...





16.11.22

100 anos de Saramago

    No dia em que José Saramago completaria 100 anos, recuperamos o vídeo já partilhado aqui há cerca de um ano, aquando do início da comemoração do seu centenário. Um autor incontornável da literatura portuguesa e da literatura universal, o "nosso" Nobel da Literatura que vale a pena conhecer melhor.


E, já agora, um excerto de As pequenas memórias, obra selecionada para a fase de escola do Concurso Nacional de Leitura, deste ano, para o ensino secundário:


    Contei noutro lugar como e porquê me chamo Saramago. Que esse Saramago não era um apelido do lado paterno, mas sim a alcunha por que a família era conhecida na aldeia. Que indo o meu pai a declarar no Registo Civil da Golegã o nascimento do seu segundo filho, sucedeu que o funcionário (chamava-se ele Silvino) estava bêbado (por despeito, disso o acusaria sempre meu pai), e que, sob os efeitos do álcool e sem que ninguém se tivesse apercebido da onomástica fraude, decidiu, por sua conta e risco, acrescentar Saramago ao lacónico José de Sousa que meu pai pretendia que eu fosse. E que, desta maneira, finalmente, graças a uma intervenção por todas as mostras divina, refiro-me, claro está, a Baco, deus do vinho e daqueles que se excedem a bebê-lo, não precisei de inventar um pseudónimo para, futuro havendo, assinar os meus livros. Sorte, grande sorte minha, foi não ter nascido em qualquer das famílias da Azinhaga que, naquele tempo e por muitos anos mais, tiveram de arrastar as obscenas alcunhas de Pichatada, Curroto e Caralhana. Entrei na vida marcado com este apelido de Saramago sem que a família o suspeitasse, e foi só aos sete anos, quando, para me matricular na instrução primária, foi necessário apresentar certidão de nascimento, que a verdade saiu nua do poço burocrático, com grande indignação de meu pai, a quem, desde que se tinha mudado para Lisboa, a alcunha desgostava. Mas o pior de tudo foi quando, chamando-se ele unicamente José de Sousa, como ver se podia nos seus papéis, a Lei, severa, desconfiada, quis saber por que bulas tinha ele então um filho cujo nome completo era José de Sousa Saramago. Assim intimado, e para que tudo ficasse no próprio, no são e no honesto, meu pai não teve outro remédio que proceder a uma nova inscrição do seu nome, passando a chamar-se, ele também, José de Sousa Saramago. Suponho que deverá ter sido este o único caso, na história da humanidade, em que foi o filho a dar o nome ao pai. Não nos serviu de muito, nem a nós nem a ela, porque meu pai, firme nas suas antipatias, sempre quis e conseguiu que o tratassem unicamente por Sousa.


11.11.22

Comemoração do S. Martinho

 Quentes e boas! Acabadinhas de chegar à Biblioteca, quadras de S. Martinhono dia que o celebra. Aguardam as vossas visitas.
  Obrigada à Professora Ana Paula Patela e aos seus alunos autores. 






6.11.22

103º aniversário de Sophia de Mello Breyner Andresen

Hoje o Google está assim:


E na nossa Biblioteca, o "Autor do Mês" já foi escolhido e a exposição montada.
Vem celebrar connosco Sophia de Mello Breyner Andresen, a autora e a obra!