Game On, Sísifo
por Açucena Martins Tavares da Silva Alijaj, 10ºI
Toc-toc-toc - passos apressados…
Hermes, Hades e Zeus ligam
sensor.
Clic! - acende-se,
abrupto, um visor.
Plic-plic-plic - comandos
ativados.
A luz materializa-se, os
botões estão controlados.
Os deuses remexem-se,
finalmente sentados.
O ecrã ilumina-se, mostra
a tarefa.
O jogo começa,
lançaram-se os dados.
Hermes, Hades e Zeus
entreolham-se.
O espaço enquadra os
tronos sagrados.
Faz-se silêncio, o jogo regressa.
Clic! – Queremos ação e
temos pressa!
Game On, Sísifo: Estamos ligados.
Sísifo olha para o ecrã e
inspira.
O penedo de mármore
esmurra-lhe os dedos;
parece um novelo de medos
e ira.
Sísifo e-x-p-i-r-a.
A pedra esfacela na
subida.
Íngremes dores, esgares
azedos,
o peso do medo e da vida
torcida;
O respirar arfante, embrulha
as discordâncias.
Falha o derreado antebraço,
cede o quadril, mostra
descompasso.
Tem sede e fome, sente-se
vil.
Vacila: pesam-lhe antigas
manigâncias.
Os músculos tensos, gela-se-lhe
o rosto.
Os pulmões ardem,
contraídos pelo esforço.
O penedo lasca largando
pó.
O olhar é baço, metendo
dó.
O penedo sobe que sobe,
sobe com o medo.
Montanha acima, Sísifo
treme.
Menos altivo, mais
quebrantado,
joelhos tensos, olhar
toldado.
O peso deixa-o
transtornado.
Montanha acima, sem
descanso,
como um relógio acelerado.
Sísifo empurra, Sísifo
sobe, atordoado.
Hermes, sagaz, puxa um
comando;
Hades sorri, um olhar
brando.
Sísifo sobe descontrolado.
Tudo lhe foge, desconcentrado.
Impelido pela brisa que o
envolve,
vareja-lhe as pernas, os braços assola,
o afinco insiste e o
penedo rola.
Rola que rola, montanha acima,
novelo de quebranto e
altivez que o engole.
A mente vagueia e Tanatos
surge-lhe:
lembra-lhe o grilhão com
que o prendeu.
Traz-lhe a mulher,
Mérope, e a prole…
O pai, Éolo, que o vento
move.
Lembranças de Corinto que
nunca esqueceu.
Traz-lhe Ares e o
sarcasmo dos Deuses.
Traz-lhe o marasmo que
nunca o prendeu.
Lembra-lhe todos os que
ofendeu e
pesam-lhe os cortes e as equimoses.
Não há trofeu no final da
escalada,
Nem clamor de glória
alada,
Nem ninfas, nem odes,
tudo esmoreceu.
Rolará o novelo de pedra,
bruscamente,
que no fundo da montanha
desabará.
Para Sísifo o voltar a
erguer, inalteradamente,
Retomando a subida que
perdurará.
Os pulsos
tremendo, o ombro enrijecido,
protege o rosto e o corpo
dormentes.
Afaga o penedo,
entorpecido.
O vento uiva
tempestivamente.
Rola o novelo, rola que
rola.
Novelo de pedra, de raiva
e quebranto.
Castigo dos Deuses ultra prepotentes,
Que pressionam alavancas,
botões, componentes…
Sísifo puxa e repuxa,
força de rei;
Rei degradado, desterrado,
sem manto,
que forçou o fado de ser
um mortal.
Os Deuses observam e
trocam esgares,
desprezam-no: um bruto
com força braçal.
Sísifo puxa e repuxa o
penedo.
Sonha acordado com o
florir do corinto.
Procura a coragem no abismo
do medo.
A pedra pesa, Sísifo
expira. Ai, a ira!
Sísifo é forte, não se vê
quebrado.
Empurra o penedo, a
montanha gira
no seu olhar penumbrado.
“Liberte-se o vento nesta
punição!
- Grita um Deus,
encolerizado.
“Sísifo está fraco,
corcovado,
vai destruir-se e acabar
a exibição.
Temos de o manter
motivado, senti-lo preso e desalinhado,
manter o absurdo desta
privação.”
Sísifo ouve o rugido do metelmi.*
Perde-se o quebranto,
surge a altivez.
Lembra-se de quando já
teve ambição.
Puxa que puxa o penedo e sorri.
Éolo não lhe falhará,
di-lo o coração.
Atinge o cume sem
resignação.
Os ventos ajudam,
convergem com manha.
Esquece os grilhões,
castigo e tormento...
larga o novelo, em catadupa.
O Vento apoia, com força
bruta,
resvala o penedo, que simboliza “a luta”.
Rompe o absurdo,
esfrangalha a rotina.
Desfaz-se em caos no sopé
da montanha,
em seixos lascados pela adrenalina.
Os deuses primem e
comprimem botões.
Soltam alarvidades e dão
empurrões.
Gesticulam, gritam, desequilibrados.
Sísifo rompeu as regras -
o jogo está parado.
“Como se atreve, é um vil
mortal…” clamam os deuses do seu pedestal.
A luz desvanece…uma cor
boreal.
Sísifo sorri e sai do
ecrã.
Jogo acabado.
Game Over, Sísifo.